Aquele acorde soara alto demais por muito tempo. Os ouvidos estão imprestáveis. Obsessivas compulsivas: vamos nos livras das impurezas? A saturação sempre vem do excesso, é fácil saber. Excesso de quê, de quê? Se eu estou toda eu incompleta, o protótipo da mulher insatisfeita, uma sede que ora é de água, ora é de ar, ora de sangue, ora é sede de sentir sede... Porque eu sempre tive a sensação de que o roteiro perfeito está logo ali, bem perto dos meus olhos. E então eu penso que não acredito na perfeição que funcione, que flua, que escorra o bastante. Sempre fui dualista, e temo que meu espírito seja um pobre objeto quebrado em dois. Aqueles trincos, aqueles risquinhos miseráveis que ficam em torno do corte, em torno da ruptura, não são nada comparado a esse simplista objeto dividido. Então eu posso pensar com gosto: sempre estive com meus pés fincados no amor, ou, o ódio cortou cada parte, toda parte, sem maiores questionamentos. Daí se pensa: em que mundo isso é algo que eu vivi? Porque muitas, centenas de vezes eu estive sentadinha na cadeira, batendo os dedos na mesa, queixo apoiado na mão, braço apoiado no cotovelo, dizendo baixinho: vamos milagre, aconteça. E agora eu posso dizer porque descobri: esse milagre não é o amor, porque eu tenho amor. Eu tenho amor. E tenho muito, não pouco. E tenho histórias. E não vivi nada e tenho histórias pra encher um livro inteiro. Por quê? Porque eu sou doente. E as pessoas doentes perdem tempo consigo mesmas, bem mais do que deveriam. Ora então, que milagrinho é esse? Que acerto no compasso é esse que essa menina quer dar? Por que ela bate o pé impaciente, diante do espelho? Milagrinho dos encontros. Não, não, eu li numa revista científica sobre um protón horrivelmente pequenininho que se disparado na terra levaria não sei quantos anos pra se chocar contra algo... O cara disse: "Por incrível que pareça: o espaço é vazio em sua maior parte." Esse protonzinho disparado enjoaria e vomitaria a sua corrida, esperando que algo que o fizesse parar. Então, eu quero algo com poder. Sou gananciosa mesmo: Que me pare quando eu estiver numa velocidade absurda, e que me movimente quando eu estiver vegetando. E a linha entre o amor e o ódio quando é grossa demais é simplesmente um porre. Vamos controlar, vamos ser suaves, vamos mentir com todo o coração, vamos nos tornar divina de uma maneira prostituída, amor, amor, isso é consciência, mas somente a de agora.
2 comentários:
Tal como coloca a questão, parece que não nasceu para ser protagonista, que busca um drama alheio que a envolva completamente, que lhe tire o excesso de energia, de vida e pensamento próprio, que seja fonte de dor e prazer. Seria uma história assim que busca representar? Como num relacionamento problemático, onde é preciso dar mais do que se recebe, onde se luta muito para obter o precioso pouco? Como quando se tem um filho e então existe um protagonista a justificar todo nosso esforço e dedicação e afastar todo e qualquer tédio ou pensamento próprio? Como quando se ama alguém vítima de uma tragédia, ou mesmo um causador de tragédias e se toma parte nesse espetáculo e se esquece nos dramas pessoais? Ou lamenta apenas que em certos momentos estamos cheios, plenos de amor e de vida, tão plenos que transbordamos... e as vezes - talvez não na maioria do tempo, embora seja suficiente para nos marcar profundamente - nos sentimos pobres, miseráveis, impotentes, sem mistério algum, a vida se torna árida e estéril. Lamenta não poder esticar os bons momentos? Lamentaria até mesmo ter muitos bons momentos? Ou essa é uma volta literária apenas? Clarice em uma entrevista diz: "Quando eu termino um livro eu morro, só volto a viver quando começo outro, mas não sei se terá outro." Talvez tu procure um envolvimento grande assim, o seu milagre, mas é difícil morrer, mesmo que possamos renascer. Ou seria esse movimento justamente o que procura? Tudo isso me faz lembrar que felicidade é uma questão de escolha.
Se falo da minha perspectiva e isso soa como uma cobrança é apenas porque não sei traduzir seu discurso para o meu mundo de outra maneira, que é o que na verdade tento com esse aparente julgamento. Afasto-me de uma maneira considerável de toda e qualquer crítica. Certa vez lhe disse que qualquer pessoa que assume para si mesma tudo o que você assume pode ser qualquer coisa, menos covarde. Tenha isso em mente quando ler o que te escrevo.
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