domingo, 7 de setembro de 2008

Do motivo do diário e do romantismo perverso...

Diários são para serem eternamente começados. Quando o período está confuso, solitário, ou simplesmente entediante. E se é entediante, o que colocar no papel? Centenas de reclamações repetidas. Se está confuso, fica melhor. A confusão é sempre mais agradável, mais viva, mais vibrante. A confusão alimenta. E a solidão obriga, nos força a qualquer coisa que é uma resistência, uma sobrevivência. E como começar os meus contos? Supondo que não me conheça, supondo que precise de todos os detalhes dessa história, mas para quê mesmo? Quero chegar a alguma conclusão? Ou simplesmente satisfazer alguns desejos secundários? Não se sabe. Talvez apenas se arrisque, a colocar tudo aqui. Um tiro no escuro, esperando que o alvo esteja exatamente na minha mira.
Então eu devo começar assim: há muita coisa não atraente no mundo. Há algumas poucas que nos chamam a atenção de verdade. Há algumas poucas que nos fazem querer um movimento. Há algumas raras coisas, e há algumas raras cenas que nos arrancam algum líquido. E qual é mesmo o ponto em que decidimos trocar o medíocre pelo complicado? Em qual momento descobrimos, ou simplesmente aceitamos que o que temos vale pouco? E paralelo a essa pergunta, está outra: quando é que adquirimos a forma de algo? Quando é que a característica ganha tanta força que passa a nos representar? A respostas dessas perguntas mostrariam a inutilidade desses questionamentos, porque eles são por assim dizer, puramente egoicos. No entanto, eles exercem algum poder sobre o andamento das coisas.
Não aceitar nada além do extraordinário. Dançar Frank Sinatra. Tornar-se uma caricatura daquilo que se sente. Tornar-se acima de tudo, uma caricatura. Uma expressão. Viver pelo menos uma aventura digna de ser contada. Como diria um personagem do Bergman, assumir que não quero ter filhos, provavelmente morrer arrependida.
Aprendi que o romantismo não é coisa desse século. Não o simples romantismo. O ano é o do romantismo complexo, é o do romantismo sangrento, latente, o ano é o do romantismo sexual, de tudo que combine mais com o ceticismo implacável sem o choro nojento dos esperançosos, algo mais cruel, e por isso mesmo, de um prazer mais real. E essa é uma de suas faces.

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