Abrir todas as portas da casa, deixar que o vento corra em todo o canto dela. Luz, luz demasiado forte, ofuscando a imagem, ardendo o olhar. E um centro, todo ele puro, sem excessos a atrapalhar. Ter a consicência de cada tranca que a casa carrega, e principalmente, abrir alguma de modo repentino. Deixar que se beba direto da fonte, sem jogos e sem excessos, além daquele que escorre da boca enquanto bebemos. Assumir principalmente que nenhum consegui a tua atenção desse jeito, assumir principalmente que não é só a carência que a conduz até ele. Assumir que ele tem todos os méritos, um banquete de características bem dosadas: é o Mersault com a calma, com a honestidade e a indiferença, a Lispector com a sensibilidade, a intensidade, e o existencialismo dramático. Eu me perco nas descrições dele. Chega um momento, que me pergunto se não é a mim que descrevo. Nesse nosso jogo, também invertemos papéis seguidamente. Ele nunca surta como eu, mas imagino alguma confusão nele também. Rolamos ambos na cama, porque se insinua entre nós um contato poderoso. E todo contato não é? Insinua-se entre nós um aproveitamento mais completo do Outro, e um sentir-se amado mais honesto. Temos a consciência, ele diz. E eu concordo, que essa é nossa arma em comum. Então ele sente que só eu posso olhar pra ele e vê-lo com um real sentido. E eu sinto o mesmo. As calmas cenas que ele me apresenta, me parecem muito com a paz de quem já conhece o mundo. Aproveitamos a presença, principalmente porque já conhecemos o outro. São as horas onde o mundo não gira. É a hora em que o toque dele é mais amável do que o de qualquer homem, porque a minha pele ele conhece bem. E então pensamos, parece que de modo inconsciente quase, que não se anda tonto de sede o tempo inteiro, mas que descansar perto dessa fonte, nos enche de uma umidade boa. Então explodimos a qualquer momento. Porque ambos temos material pra isso. Penso que não lhe atrai a minha natureza mais bruta de mulher, e então eu lembro que ele é um homem. Então eu lembro que ele tem a filosofia nas mãos. E que quem carrega o útero sou eu. Não, não é fácil pensar que toda mulher poderia encantá-lo. Porque tal homem, com o pensamento de tal modo minucioso, saberia desfrutar de cada uma, alguma qualidade especial. No entanto, sou eu quem pode invadí-lo inteiro. Sou eu quem carrega as horas de musa do jogo dele. E de uma maneira gritante, sou eu quem pode entender toda a lógica de sua existência. Ora, por vezes eu o crítico enfaticamente mas com segundas intenções. Tentanto apenas miná-lo, desafiá-lo, jogando nele toda a minha falta de fé, e rezando escondida para que ele me vença nesse jogo. De um modo estranho, ele assumiu primeiro. Pensei em minha falta de passionalidade, e então entendi que meu drama era pior que o dele. Pensei, talvez teimosamente, que o caos não o tinha atingido. O seu envolvimento era organizado. Enquanto o meu, uma montanha russa, cheia de ir e vir, de um sentir e um não-sentir que é febril. Pensei tranquila, a passionalidade está em mim ainda. Apesar de ser fraca muitas vezes quando ele aparece. Tornar-se racional demais com um homem desses é um pecado. Há nele uma sabedoria quente e rara, coisa muito humana, seriamente evoluída, capaz de me deixar tonta, confusa, medrosa, e atraída. Confundo-me sempre na nossa história de musa e deus-encenado. Invertemos papéis constantemente? Ora, ambos saberíamos aproveitar as situações opostas que o amor nos coloca. Ele guarda essa palavra. Evita usar "amor". Sei que é porque tem fé de um dia poder usá-la adequadamente. Eu, com todo meu jeito pessimista, acho que o que passar daqui é utopia. Já me parece demasiada a sorte que teremos se disso tudo sair uma daquelas noites inesquecíveis. A dúvida sobre a minha condição de musa nos afasta. Lança-me para um lugar comum na vida dele, no qual eu estaciono e segurando as lágrimas pela história perdida, me torno amarga, fria, rezando mais uma vez para que ele me tire dali e me coloque no lugar especial de antes. Exijo demais de ambos. Mas de certo modo é por esse mesmo motivo que às vezes ele pode me chamar de musa. Em especial quando ele está longe, quero desorganizar toda essa cena em crise, e assumir pra ele que eu desejo muito que ele me tome, e lembrá-lo, pois temo que esqueça, que o papel de musa é meu, e de nenhuma outra.
Um comentário:
Nunca ouvi nada mais belo, nem mais profundo antes. Musa, minha musa. Hoje talvez precisemos nos redescrever, somos nada mais do que redescrições de nós mesmos, afinal. Mas nesse texto conseguiu captar a essência de um momento. Há vida nele, ele vibra tanto hoje quanto naquele momento. Eu já te amava quando o escreveu, continuo a te amar hoje.
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